Entre os dias 16 e 18 de fevereiro de 2026, realizou-se um workshop seguido de visita de campo aos produtores do distrito de Angónia, na província de Tete. O evento reuniu representantes de diversas instituições nacionais e internacionais que actuam no desenvolvimento agrícola e na gestão sustentável da Bacia do Zambeze.
Participaram do encontro o Delegado Regional Centro do Instituto de Investigação Agrária de Moçambique (IIAM), Eng. Alcídio Vilanculos, investigadores do IIAM e do IITA (Instituto Internacional de Agricultura Tropical), Directores dos Serviços Distritais de Actividades Económicas de Mopeia, Chemba, Guro e Changara distritos que integram a Bacia do Zambeze além de delegações do Zimbabwe, Zâmbia e Malawi. Também estiveram presentes o Coordenador do Programa PIDACC Zambeze, o CEO da ZAMCOM (Comissão do Curso de Água do Zambeze) e técnicos da Administração Regional de Águas do Centro (ARA Centro – Delegação de Tete).
Primeiro Dia: Discussões Estratégicas
O workshop decorreu no dia 16, no Hotel VIP, na cidade de Tete. A sessão de abertura foi conduzida pelo Coordenador do PIDACC Zambeze Moçambique, Sr. Hélder Gimo, que apresentou os objectivos do encontro e contextualizou a importância estratégica da Bacia do Zambeze para a região.
Em seguida, o Dr. Rowen Jani, CEO da ZAMCOM, abordou os principais desafios enfrentados pela Bacia do Zambeze, destacando:
- A elevada taxa de pobreza das populações ribeirinhas;
- A necessidade de expansão e melhoria das infraestruturas de irrigação;
- A degradação ambiental, que afeta cerca de 51% do território;
- A ocorrência frequente de desastres naturais, como secas generalizadas e cheias recorrentes, especialmente na província de Tete;
- A crescente competição pelo uso da água entre os países que partilham a bacia.
Para enfrentar esses desafios, foi elaborado um plano estratégico de intervenção com duração de 22 anos, estruturado em quatro pilares fundamentais:
- Investimento em infraestruturas de controlo e gestão da água;
- Apoio aos meios de subsistência e à segurança alimentar;
- Conservação ambiental e recuperação de áreas degradadas;
- Promoção do uso eficiente e sustentável dos recursos hídricos partilhados.
Implementação do Programa de Agricultura Sustentável em Angónia
Como parte das acções iniciais do plano, foi lançado o programa de Sustainable Farming, focado no fortalecimento dos meios de subsistência e da segurança alimentar. A iniciativa está a ser implementada no distrito de Angónia pelo IITA e pelo IIAM.
O Dr. John Omondi, pesquisador do IITA, explicou que o projecto evoluiu desde ensaios em campos experimentais até à fase atual de transferência de tecnologias para o setor familiar. Trata-se da continuidade do projeto “Chinyanja Triangle”, desenvolvido nos últimos três anos em Angónia (Moçambique), Zâmbia e Malawi.
O objectivo principal da fase actual é validar recomendações agronómicas para as culturas de milho e soja, comparando-as com as práticas tradicionais dos produtores. Ao todo, foram estabelecidos 35 campos em cinco comunidades do distrito.
Adicionalmente, foi desenvolvido um catálogo das regiões agroecológicas de Moçambique para integração na plataforma TAAT (Technologies for African Agricultural Transformation), identificando as culturas específicas de cada região.
Segundo Dia: Visita aos Campos de Demonstração
O segundo dia foi dedicado à visita aos campos de demonstração no distrito de Angónia. A actividade contou com a presença do Director dos Serviços Distritais de Infraestruturas, em representação do Administrador do distrito.
Foram visitados cinco produtores nas comunidades de Godhi, Chiphole, Matewere e Calomue. Durante a visita, pesquisadores do IITA e do IIAM apresentaram as parcelas experimentais, compostas por três talhões de soja e três de milho, organizados da seguinte forma:
- T1 – Soja (prática do produtor) – Variedade Wamini
- T2 – Milho (prática do produtor) – Variedade IIAM 1001 NAMULI
- T3 – Soja padrão (Variedade Wamini + inoculante)
- T4 – Soja MVP (Variedade Serenade + inoculação + adubação)
- T5 – Milho padrão – Variedade DK 90-89
- T6 – Milho MVP – Variedade IIAM 1001 NAMULI
O Eng. Mateus Mapaure, investigador do IIAM e ponto focal do projeto, explicou que antes da instalação dos campos foi realizado o mapeamento das áreas e a amostragem de solos. Com base nos resultados, foram formuladas misturas específicas de fertilizantes, especialmente para o tratamento T6, ajustadas às necessidades de cada produtor e local.
Impacto e Perspectivas para as Comunidades
Em entrevista, o Dr. Rowen Jani destacou que esta é a primeira de várias iniciativas de desenvolvimento agrícola previstas para toda a Bacia do Zambeze. Segundo ele, o objectivo é apoiar as comunidades ribeirinhas no aumento da produtividade, garantindo segurança alimentar e melhoria da renda familiar.
Entre os beneficiários, a produtora Felicidade manifestou satisfação com as tecnologias introduzidas. Ela afirmou que pretende expandir a sua área de produção de milho e soja com base nos conhecimentos adquiridos. No entanto, relatou dificuldades no acesso a sementes de soja, após ter perdido as últimas duas campanhas devido à ferrugem asiática, doença que afectou severamente a produção local.
Este encontro reforça o compromisso das instituições envolvidas com a promoção de uma agricultura sustentável, resiliente às mudanças climáticas e capaz de transformar a vida das comunidades da Bacia do Zambeze.
Texto: Mateus Mapaure; Fotos: IIAM/IITA










